Histórias de Um Tempo que Foge à Memória
Coro e Orquestra


O meu lugar espiritual é o Algarve.
De onde venho, e para onde volto constantemente, ainda que, como deslocado, muitas vezes só
em pensamentos.
Mas a pergunta que se impõe é, o que é o Algarve?
Uma delimitação geográfica, que alguém decidiu há centenas de anos atrás? Tudo o que está
abaixo da serra de Monchique e do Caldeirão?
O que é que torna aquela pessoa algarvia e a outra não? Porque nascer no mesmo espaço, não
implica partilhar necessariamente a mesma cultura.
Num período em que assistimos a uma padronização crescente do nosso dia a dia, como artista,
interessam-me as histórias que só cada um de nós, ou as nossas pequenas comunidades,
podem contar. As lendas e os mitos que partilhamos e que nos unem - a memória coletiva.
No Algarve, recordo ouvir as histórias do meu avô de trabalho exaustivo, mas também de muita
diversão, e acima de tudo, comunidade. Histórias que ouvi repetidas em tons diferentes, mas
com o mesmo conteúdo, pela nossa região.
Quando surgiu a ideia para este projeto, e o convite da Associação Musical do Algarve -
Orquestra do Algarve, o objetivo foi precisamente honrar esta memória que todos transportamos,
das histórias dos nossos avós, como elas passaram ou não até nós, o que é que elas contam do
tempo em que eles viveram, e o que é que podemos tirar delas para os desafios da nossa
realidade.
A recolha do material etnográfico foi feita a partir da minha própria memória e experiência, das
gravações intemporais de Fernando Lopes-Graça e Michel Giacometti na região, e do trabalho
livremente disponibilizado online pelo projecto “A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria”, a
quem louvo o trabalho de preservação e catálogo do património musical português.
“Histórias de um Tempo que Foge à Memória” é uma obra encomendada pela Associação
Musical do Algarve - Orquestra do Algarve, a quem agradeço o apoio e colaboração na
idealização e concretização deste projeto, e sem a qual ele não teria existido.
I. DANÇA DE RODA
Dançar e socializar sempre estiveram de mãos dadas na nossa cultura. Era uma forma de vencer
a timidez, libertar o stress do dia, e de fortalecer os laços dentro da comunidade. Em particular,
as danças de roda, em que os pares vão trocando, providenciavam uma forma simples de
conhecer pessoas novas, ou de reforçar ligações já pré-existentes, e os bailaricos ao fim de
semana, montados quase artesanalmente com os instrumentos rudimentares que havia (flauta,
cana rachada e ferrinhos - concertina, quando alguém tinha), constituíam muitas vezes o ponto
alto da semana, ao fim de uma jornada de trabalho no mar ou no campo.
Na minha interpretação, expando a ideia do “mandador” para uma voz, que depois é seguida
pelo resto do coro, e os temas são colectâneas (algumas inventadas), do imaginário tradicional -
sempre acompanhas, claro está, dos ferrinhos a marcar o tempo.
II. DEUS TE SALVE ÓH ROSA
Cantar sozinho, laudar, expressar os sentimentos através da música, é algo transversal aos
tempos - e a temática do amor correspondido ou não atravessa culturas e gerações. Esta canção
em particular pode ser interpretada de várias formas, com a mesma letra, mudando o estado de
espírito do “sujeito poético” (uma característica partilhada por muita música tradicional, em que a
intenção é mais velada ou ambígua).
Pessoalmente, sempre me fascinou a ideia de “espaço” em música - espaço para ouvir
claramente uma melodia, um texto ou um timbre. Neste andamento, dividido essencialmente em
duas partes, e com um texto tão forte, a orquestra suporta apenas a “lauda” dos cantores, sobreo seu amor correspondido ou não, comentando ou magnificando o que é dito. Ao escrever,
recordo constantemente os ensinamentos de Aaron Copland, sobre “retirar da música tudo o que
não serve a música”. Se o texto é bom, é deixá-lo respirar.
III. FUI AO MAR À LARANJA
Por contraste, outra característica do nosso património etnomusicológico (o que quer que isso
signifique) que sempre me fascinou, é a jocosidade e a leveza temática do material. Muita coisa
podia ser dita e aceite, desde que fosse dita a cantar.
Ao escrever este andamento, recordei os tempos em que eu próprio cantava no coro, e do gosto
e companheirismo de fazer música em conjunto. Explorando também o lirismo das melodias
tradicionais, e os ritmos compostos, tentei escrever uma música que, se estivesse de volta à
orquestra e ao coro, também eu me iria divertir a cantar, a tocar ou a dirigir.
IV. LEVA, LEVA
A música de trabalho, e em particular a música de trabalho associada à pesca, é um património
sonoro indissociável da cultura algarvia. Numa altura em que a maquinaria de pesca era mais
rudimentar, o trabalho era essencialmente braçal e implicava o esforço coordenado de todos os
envolvidos para que o peixe pudesse ser colhido, trabalhado, as fábricas pudessem ser
fornecidas, e as famílias alimentadas. Tal como no campo, no mar a música afinava os esforços
com este objectivo comum.
Recordo que na primeira vez que vi as imagens da pesca do atum, ao largo de Portimão, e o
trabalho e a coordenação envolvidas no processo, surgiu-me imediatamente a ideia de musicar
este andamento como um cânone - camadas de repetições ligeiramente diferentes que se vão
lentamente acumulando - individualidades que se dissolvem progressivamente no colectivo, para
um fim qualquer (neste caso, musical).
V. CORRIDINHO
O corridinho é talvez a forma musical algarvia mais conhecida e mais exportada, e nunca poderia
ficar de fora deste compêndio. Para mim, os ritmos compostos e as melodias modais, um certo
caos coordenado, são fonte de inesgotável inspiração.
Neste andamento, canalizei as minhas memórias musicais de crescer nesta região, onde ouvia o rancho e os Íris, bailes mandados e até música que vinha do outro lado do Guadiana, enquanto
um jovem a estudar piano e composição em Tavira.
